Deambulações em Bulb

Artigo: 

“Deambulações em Bulb”

Bulb é uma função da máquina fotográfica que permite controlar a duração do tempo de abertura do obturador. O fotógrafo deve pressionar o botão obturador por intermédio de um cabo disparador. O tempo que decorre, enquanto o fotógrafo pressiona o botão, pode ser longo ou curto.  “Deambulações em Bulb” é o resultado de um trabalho fotográfico registado em “Bulb”, com velocidades de obturação relativamente curtas,  variando de alguns segundos a minutos. A minha escolha pelo modo “Bulb” levou em conta os resultados inesperados e criativos que daí podem advir a partir de uma imagem trivial.

“Bulb”.

Em Bulb, a luz vai entrando pelo obturador e a máquina fotográfica vai processando a informação. Mediante o nosso critério podemos aumentar ou diminuir a sensibilidade do processador à luz que entra, alterando o valor de ISO ou o da Focal, fazendo com que o tempo de exposição seja maior ou menor.  Controlamos a quantidade de luz que queremos captar, ou seja, o momento exato em que entra e o momento que queremos que deixe de entrar e assim acabamos a exposição. Já os resultados são inesperados. Dele resultam imagens, a maior parte, irrealistas, revelando o que o olho humano é incapaz de observar e registar. As nossas limitações físicas são amplamente ultrapassadas. Vemos os rastos de movimento, os desfoques de movimento desvelados em aguarelas, os rastos de luz, as estrelas que “não estão paradas...” um outro dinamismo que estava oculto à nossa perceção.

Nós também temos um modo Bulb existencial. Às vezes quando as pessoas me perguntam...”em que pensas? “... caio na tentação de responder” estou em bulb”. Mas seria demasiado complicado e demorado explicar a minha afirmação... portanto prefiro umas palavras standard que tenho preparadas para estas ocasiões, como...“não estava a pensar em nada de especial!” Ora que mentira! São nos momentos Bulb que paramos e deixamos que o nosso pensamento processe a informação que fomos recolhendo durante o dia ou aquela que ficou acumulada durante anos, aí num desses compartimentos do nosso cérebro. E aparecem os resultados inesperados, compreendemos o que duvidávamos e admiramos

 as conclusões que registamos. Alguns dizem que isso é a inspiração, ou um “dom”, outros que é algo divino...eu chamo-o um momento Bulb. Cientistas, artistas, místicos, filósofos... todos deambularam nos seus dias em Bulb levando-os à criação individual das suas obras.

Quando fotografamos em Bulb, nós também estamos em bulb. Esperamos para ver os resultados dos valores que escolhemos para a nossa máquina fotográfica. Tentamos imaginar como será o objeto fotográfico “sob os nossos mandamentos” e esperamos para ver o resultado, enquanto pensamos nas mãos geladas que seguram o cabo disparador durante a noite ou nas pessoas que “por educação” se afastam da máquina fotográfica para “não estragarem” a fotografia... gostaria de lhes dizer: “Não se afastem! Estou em Bulb e gostaria de registar o vosso movimento!” Por vezes, de olhos “semi-fechados”, vejo uma aproximação do que poderá resultar da exposição Bulb que quero e é como entrar noutra  versão da vida... umas deambulações em Bulb que só a máquina fotográfica é capaz de desvelar