O projeto "Canyet"

Artigo: 

 

Os esquecidos abutres.

 

Porquê os abutres estão em declínio na península Ibérica?

 

Quando o ser humano se iniciou na pecuária massiva e mecanizada, começou a ser muito difícil para os necrófagos encontrarem alimento, visto que, o gado ao encontrar-se em estábulos fechados e confinados a um determinado local, quando morre, não pode ser deixado em pleno meio natural. Está proibido pelas autoridades sanitárias. Sendo assim, cada vez é mais difícil para os necrófagos poderem sobreviver com apenas alguns animais mortos e de pequeno porte, tal como os coelhos ou algum javalí. Por outro lado, os abutres também não podem competir com os caçadores que de algum modo contribuem para a falta de alimento. Também a má fama adquirida ao longo dos tempos destes animais, fruto de lendas, fábulas e histórias inventadas, contribuíu para o seu envenenamento pois sempre foram vistos como seres feios e agressivos, “non gratos” sem nenhuma utilidade.

 

“Projecte Canyet”- A colaboração entre abutres e homens. 

 

Depois de ter feito algunas tentativas de observação de abutres no Douro e Tejo internacional sem grandes resultados, tomei conhecimento do projeto “Canyet”. A “buitrera” ou “canyet”, está em plena paisagem natural na serra da Mariola em Alcoi, Espanha, onde se pode observar com facilidade o abutre comum, também conhecido como “Grifo”- Gyps fulvus e onde se desenvolve o projeto denominado de “Projecte Canyet”. Desde hà algum tempo, que este projeto despertou a minha curiosidade pela sua originalidade. Não só pela patente proteção e preservação destas aves, mas também pela demonstração de como estas aves podem contribuir para a melhoria do meio ambiente, onde ambos,  homem e abutre são beneficiados.

Contactei com Mari Carme Pascual (Departament de Medi Ambient de l'Ajuntament d'Alcoi) e com um dos  responsáveis do “Proyecte Canyet”, Àlvar Seguí, aos quais fiz chegar a minha motivação de poder elaborar uma reportagem do referido projeto e dá-lo a conhecer ao público em geral, como sendo um excelente exemplo de colaboração entre “natureza” e ser humano.

 

 

Breve descrição do abutre comum:

 

Este abutre é uma espécie de ave accipitriforme da familia Accipitridae. Pode chegar aos 10 kg de peso e uma envergadura que pode superar os 2,5 m (com as asas abertas). São de cor castanha- ocre e mais escuras na cauda e nas pontas das asas. São umas aves muito pesadas e lentas, tendo umas garras grandes, mas mais débeis que as das outras aves de rapina.  Têm um bico em forma de gancho, especializado em desgarrar tecidos.Estas características fazem com que os abutres não sejam capazes de caçar e matar outros animais, pelo que são exclusivamente necrófagos, ou seja, alimentam- se únicamente de animais já mortos.

Os abutres nidificam em zonas escarpadas, que em Alcoi se encontram no chamado “Barranc del Cinc”.

 

Entrevistando a Àlvar Seguí

 

 

Quando cheguei à Serra da Mariola em Alcoi, fiz uma entrevista a Àlvar Seguí que me explicou com mais pormenor como funcionava este projeto.

Um “Canyet” é um “... lloc autoritzat per deixar-hi restes de bestiar mort (espais coneguts com a canyets)”-  sitio autorizado onde se pode deixar  restos de animais mortos, para que se alimentem os necrófagos. Ter um sítio para deixar restos de animais mortos é primordial para a sobrevivencia destas aves.

Este projeto permitiu reentroduzir os abutres de novo no seu territorio antigo. Em 2005, por primeira vez, soltaram-se 6 exemplares e assim progresivamente até aos días de hoje onde já existem mais de 60 exemplares, formando uma colónia estável e com capacidade reprodutiva. Os primeiros abutres estiveram em catividade, em jaulas muito grandes para que se acostumassem ao local. Pouco a pouco foram aceitando o local e atualmente já não existem abutres em catividade. Levando em conta que cada casal de abutres cria apenas uma cria de cada vez é notável o sucesso deste projeto.O sucesso reside no facto de, em Alcoi, poderem alimentar os abutres com os restos de animais mortos dos talhos, das quintas, dos mercados municipais e dos matadouros, já improprios para o consumo humano, mas libres de medicamentos para poderem ser consumidos pelos abutres. Estes são alimentados uma vez por semana e sempre com a mesma quantidade de comida. Desta maneira permite-se que os abutres mais jovens possam procurar mais alimento e se extendam a outros sítios.

 

 

A real importancia destas aves em Alcoi:

 

Àlvar Seguí, também realçou o importante papel destas aves necrófagas nos ecossistemas. São elas que eliminam bacterias perigosas capazes de se desenvolverem na carne em putrefação e capazes de enquinar águas subterrâneas. Também fazem desaparecer os restos da industria da carne (matadouros, talhos, etc), cujo destino seria a incerinação com as inevitáveis consequências para a poluição atmosférica e aquecimento global além dos custos económicos subjacentes. Para a incerinação de todo este material é necessário muito combustível e os abutres fazem esta função de uma forma muito mais  natural e ecológica. Penso que se a maior parte dos despredícios de carne pudesse ser dada aos abutres, estaríamos a diminuir a poluição atmosférica de uma forma natural, mas também a devolver a estes animais o hábitat que lhes foi roubado.

Atualmente em Alcoi, os abutres são respeitados e vistos com orgulho, como “uns habitantes mais” da cidade. E esta mudança de mentalidade é também um orgulho para a espécie humana!

 

A minha visita ao Canyet:

 

A primeira vez que visitei estes abutres e os tentei ver de perto foi no ano de 2014. No mes de agosto acompanhei o “todo terreno” que lentamente vai subindo a Serra da Mariola com um atrelado com os restos dos talhos, previamente recolhidos por Àlvar Seguì. Não tive grande sorte pois estas aves são muito desconfiadas e, sentindo de algum modo a minha presença, não desceram até ao “Comedeiro” para se alimentarem. No entanto, este ano, em 2015, a minha sorte seria diferente. Mais uma vez subi com Àlvar e observei como espalhava os restos cárnicos pelo terreno. Ao longe, já os abutres íam sobrevoando as escarpas envolventes do cenário da alimentação, onde está montado um hide. Tem um vidro- espía (prateado por fora para que as aves não possam ver o seu interior) e  está posicionado dentro da área de alimentação para ser utilizado por biólogos e pelo pessoal responsável do projeto. Limpei o vidro por dentro e por fora e rápidamente entrei para o hide enquanto Àlvar se ía embora. Aí fiquei sentada cerca de 5 horas à espera que os abutres decidissem finalmente se íam comer ou não… estive em silêncio absoluto e pude fotografar todo o desenrolar de sequèncias previas do ritual de aproximação dos abutres.

 

Em primeiro lugar chegam as pegas (Piva pica) que vão debicando pedacitos da carde comendo algunas das moscas que se concentram no local. Depois chegou uma pequena raposa que rápidamente se foi embora. Os mamíferos são difíceis de fotografar, mesmo utilizando hides camuflados. Devido ao seu apurado olfacto podem detetar a presença humana. Depois vieram os estorninhos que se alimentaram dos moscas e depois os corvos. Estes são muito mais cuidadosos e desconfiados que as pegas. A cada clik da minha máquina fotográfica, olhavam atentamente e fixamente para o sítio onde me encontrava. Algumas vezes afastavam-se e demoravam mais tempo a voltar. São os corvos, os principais guias dos abutres. São estes que por meio do seu voo dão sinal aos abutres onde se encontra o alimento.

Finalmente os abutres começaram a chegar, situando-se nas árvores e rochas próximas ao sítio da alimentação. Os abutres mantiveram-se cerca de duas horas nos seus sítios de observação e pouco a pouco foram- se aproximando mais. De seguida observei que avançaram dois abutres à frente dos outros, muito devagar e de repente, sem eu ter percebido muito bem qual foi o sinal que deram entre eles, avançaram todos ao mesmo tempo envoltos numa onda de poeira e carne!

 

Para terminar, reitero o meu profundo agradecimento a Àlvar y a Mari Carme que me proporcionaram esta fantástica experiencia que eu, como Bióloga, disfrutei muito. Gostaria de dar a conhecer este projeto e que este se extendesse a outros locais. Já é hora que se reconheça a utilidade e a importância destas aves no ecossitema a que todos pertencemos de o ser Humano começar a respeitar o espaço dos outros habitantes do planeta Terra… que aliàs, já o habitavam antes de “aparecer” o Homo sapiens sapiens.

 

Isabel Montenegro